Veneno

March 2, 2010

Eu fui envenenada por um nome.

Primeiro penso em Haku, o dragão que engoliu o selo de Zeniba, a bruxa do pântano. Hayao Miyazaki explicava pra equipe de animadores; “eu quero que seja como um cão engasgado, quantos de vocês tem um cachorro em casa?”. Uns dois assistentes tinham. Haku é atacado por aviõeszinhos de papel, desce frenético pela chaminé e cai de lá pra morrer. Chihiro (Sen) faz força e abre a boca do dragão, enfia-lhe um bolinho de ervas na goela e ele cospe o selo ainda queimando, com o feitiço que envolvia o selo vivo.

Diatollevi morreu de câncer acreditando que os estudos incauto dos livros, das palavras e dos significados das coisas, da verdade das coisas, tenha modificado o propósito das células no seu corpo; fazendo anagramas sem rezar, reinventando o mundo, GCC, CGC, GCG, CGG.

Agora digo isto porque finalmente compreendi tudo o meu corpo. Eu o estudo dia a dia, sei aquilo que ocorre cm ele, só que não posso intervir, as células não me obedecem mais. Morro porque convenci as minhas células de que a regra não existe, e de que se pode fazer de qualquer texto o que bem se quiser. Passei a vida a convencer-me disso, eu, com o meu cérebro. E meu cérebro deve ter-lhes transmitido a mensagem, a elas. Por que devo pretender que elas sejam mais prudentes que meu cérebro? Morro porque fomos fantasiosos além de todos os limites.

Clarice (segundo Benjamin Moser, judia que era,) também andou atrás da palavra que reduzia todas as coisas. Em uma das tentativas, acabou latindo.

Já isto é o que o hebraico faz com a língua da gente.

Eu não sei o que o português faz com o ouvido da gente. Mas se ler livros equivale a ler bulas, tenho que suspeitar de que das mentiras que me disseram alguma dessas bolinhas escorregou para dentro do sistema ouvido-nariz-garganta e desceu queimando, como o selo, e está desde então aqui em mim alojado. Picos de febre vão continuar a surgir feito malária, na ocasião de descargas de substâncias tóxicas e criação maciça de imagens fantasmagóricas, até que alguma garota pequena e descompromissada me bote um bolinho amargo na boca e me segure até que a bolinha saia, ainda quente, com seu vermezinho maléfico.

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3 Responses to “Veneno”

  1. Lu. Says:

    Embora pareça inútil dizer, espero q lembre q sem adversidades o ser humano não presta e no geral a descarga tóxica q causa febre é o nosso próprio corpo quem produz. Mas espero q vc fique bem e tb não fique zangada comigo.
    Se garotinhas com bolinhos amargos pra curar é difícil encontrar, imagine só uma que ainda segura o dragão se debatendo até ele se acalmar.
    .o/


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