Os cavalos da Av. 23
May 16, 2011
No caminho que usualmente faço para ir ao Shizuoka Kenjin, passo por uma ponte com três pontos de luz: começo, meio, fim. Agora faz frio e anoitece cedo, atravesso com um bando de silhuetas encapotadas. Foi o sonho: tudo deserto. Na avenida que sempre tem carros não tinha nenhum, mas corria uma massa de penas curtas na penumbra, em passo determinado sem pressa. Eu caminhava sozinha, olhando, longe do parapeito. Na hora em que percebi o que era aquela marcha, vejo um deles no ponto de luz do começo da ponte: metade cavalo, metade galinha, um exagero descomunal dos dois medindo bem os seus 3 metros. Mais bizarro que a proporção foi o movimento: com o canto do olho o borrão que me alertou tinha aquele passinho nervoso da galinha. Quando virei de frente para ele, parou, e apareceu mais o cavalo – me olhava todo preto, inexpressivo, o poste fazia ver só as linhas dos músculos densos, o contraste marcado do pescoço até as linhas do peito, que era onde começava a mistura. Me olhava mas não deu sinal de que ia me perseguir, não sonhei terror. Eu no segundo ponto de luz não via nada do asfalto até o animal; não parecia mais longe do que é realmente, só parecia mais tempo.
Não lembro se ele fungou e cheguei a ver o ar quente pelo foco de luz, mas é com essa cena que lembrei da história quando acordei – um monstro parou e respirou pra ver o que a menina fazia. Eu é que estava no lugar errado, o grupo de todos eles marchava com algum outro propósito, algum outro compromisso naquela cidade sem gente.


